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Saúde Mental e Meio Ambiente. Pode o contato com a natureza promover saúde o bem-estar psíquico?

Publicado em: 10/10/2020


Pontos Importantes:

 

  1. Passar um tempo na natureza está associado a benefícios cognitivos e à melhoria do humor, bem como de outros aspectos relacionados à saúde mental.
  2. Sentir-se conectado à natureza pode provocar sentimento de bem-estar, independentemente de quanto tempo se gasta ao ar livre.
  3. Os espaços verdes (plantas) e os azuis (ambientes aquáticos) produzem bem-estar. Espaços mais remotos e com biodiversidade podem ser particularmente úteis, mas até mesmo parques e árvores urbanas trazem resultados positivos.

 

 

 

A sabedoria popular deste muito aponta para os efeitos benéficos do contato com a natureza. Quem num momento de estresse e ansiedade não sente vontade de fugir para um local afastado, com silêncio e muito verde? Ou então experimenta o desejo de tomar um banho de mar para “lavar a alma”? Alguns também relatam sobre o prazer em cuidar de plantas, mexer com a terra e coisas do gênero.

Recentemente, a Associação Americana de Psicologia, publicou em seu site¹ uma matéria explorando o avanço ocorrido nos últimos anos nas pesquisas em psicologia e neurociências que apontam para a existência de correlações positivas entre o contato com a natureza e melhorias na saúde mental.

Aquilo que aparecia como intuição passa a ser demonstrado em pesquisas científicas rigorosas desenvolvidas em universidades de diferentes países. Mas antes de adentrarmos na descrição dessa produção acadêmica, podemos nos perguntar acerca dos fatores motivadores desse encontro entre a Psicologia e os estudos sobre meio ambiente.

 

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Talvez, a melhor opção seja iniciar pela descrição de um cenário comum para um número significativo de pessoas nas últimas décadas: a tendência global para a vida urbana combinada com a crescente dependência das novas tecnologias. Neste contexto, há uma menor exposição de tempo ao ar livre e uma predominância de atividades em locais fechados. Tal fato pode ser averiguado, de maneira rápida, em conversas com pais, avôs e pessoas mais velhas que contam sobre suas relações com o campo, com os animais, técnicas de plantio e etc.

Compreender isso, entretanto, ainda não é suficiente para estabelecer as relações existentes entre o contato com a natureza e a melhoria da qualidade da saúde mental. Embora estejamos falando de um campo do conhecimento que está dando seus primeiros passos, podemos assinar, em linhas gerais, um número importante de pesquisas que demonstram os benefícios para a saúde mental de, por exemplo, realizar passeios em parques urbanos. Os benefícios encontrados vão desde a melhoria da atenção, a diminuição do estresse, a melhoria do humor, o aumento da empatia e até mesmo a redução dos distúrbios psiquiátricos. Ainda que a maioria das pesquisas tenha se concentrado em espaços verdes como parques e florestas, estudos envolvendo espaços predominantemente azul com vistas para rios e oceanos também demonstram resultados parecidos em termos de melhoria da saúde mental.

Segundo Lisa Nisbet, psicóloga da Universidade Trent no Canadá há “evidências crescentes, de dezenas e dezenas de pesquisadores, de que a natureza tem benefícios para o bem-estar físico e psicológico". O que chama atenção é que não necessariamente você precisa se isolar dos espaços urbanos isolando-se em áreas distantes e quase inabitadas. Mesmo a natureza encontrada nos centros das cidades pode promover o bem-estar. O que os cientistas estão apontando é para a contribuição do que denominam por “senso de conexão com o mundo natural” como preponderante para aumento dos fatores de felicidade.

 

 

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Benefícios Cognitivos

Passar um tempo na natureza pode ter impactos muito positivos para o cérebro ocupado. Alguns dos estudos encontrados demonstram que a existência de espaços verdes próximos as escolas, por exemplo, podem auxiliar no desenvolvimento cognitivo de crianças. Além disso, olhar pela janela e encontrar uma vista verde contribui no desenvolvimento de comportamentos de autocontrole, importante para atividades de estudo. Já pesquisas com adultos em habitações em locais próximos a regiões com verde demonstram que eles apresentam uma melhora na atenção quando comparados com aqueles alocados em espaços com menor acesso a plantas e paisagem verde. Os experimentos apontam, ainda, que a exposição aos ambientes naturais promove melhoria na memória, amplia a flexibilidade cognitiva e o controle da atenção.

Vale ressaltar, que essas características cognitivas positivamente impactadas pelo contato com a natureza são importantes não somente na faze de estudos, visto que o atual mundo do trabalho exige, em grande medida, habilidades desse tipo.

            Outro aspecto demonstrado pela ciência, por meio de estudos experimentais, diz respeito ao fato de que basta alguns momentos em contato com o verde para um cérebro cansado sentir-se beneficiado. Uma pesquisa australiana com alunos demonstrou que apenas o ato de olhar para um telhado verde durante 40 segundos melhorou significativamente o resultado de uma atividade proposta em relação a estudantes que olharam para um telhado concreto.

            Chama atenção ainda que o poder da relação com a natureza não está relacionado especificamente com o sentido da visão. Estudos com sons da natureza demonstram os efeitos recuperativos em atividades cognitivas, barulhos como de alguns insetos e de ondas quebrando causam impactos positivos em testes cognitivos.

 

 

 

Bem estar e Felicidade

Passar um tempo na natureza traz benefícios cognitivos, mas também promove benefícios emocionais e existenciais mais complexos e importantes que nossa capacidade de resolver problemas aritméticos velozmente. O contato com a natureza pode ser associado ao aumento tanto da felicidade quanto do sentimento de bem-estar subjetivo. Amplia também o afeto positivo e interações sociais, além de fortalecer o senso de significado e propósito na vida, bem como auxilia na diminuição do sofrimento mental

Um dos estudos descobriu que crianças moradoras de bairros com mais espaços verdes tinham o risco reduzido de desenvolver muitos transtornos psiquiátricos mais tarde na vida, incluindo depressão, transtornos de humor, esquizofrenia, transtornos alimentares e transtorno por uso de substâncias. Para aqueles com níveis mais baixos de exposição ao espaço verde durante a infância, o risco de desenvolver doenças mentais foi 55% maior do que para aqueles que cresceram com espaço verde abundante.

 

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Mas qual seria o tempo necessário para alcançar esses resultados? Com tantos benefícios ligados à natureza, as pessoas devem fazer esta pergunta. Uma pesquisa realidade com quase 20.000 adultos em todo o Reino Unido tentou responder. Foi descoberto que pessoas que passaram pelo menos duas horas de lazer em ambientes naturais durante a semana anterior relataram uma melhoria significativa na saúde e no sentimento de bem-estar. Esse padrão se manteve verdadeiro em todos os subgrupos, incluindo idosos e pessoas com problemas crônicos de saúde. Os efeitos foram os mesmos, se eles receberam a dose da natureza em uma única sessão de 120 minutos ou se fragmentaram a experiência ao longo da semana

 

 

 

O que faremos?

Em tempos de pandemia, muitos de nós percebemos a relação existente entre a saúde mental e os diversos espaços pelos quais circulamos. Há diversos relatos de pessoas em situação de sofrimento mental ou que passaram a experimentar sintomas de ansiedade quando perceberam sua mobilidade diminuída e o empobrecimento da relação entre estímulos espaciais e atividades específicas. Muitas são as hipóteses explicativas do mal-estar experimentado, e os fatores preponderantes na produção do sofrimento são diversos. Todavia, essas explicações não poderiam ganhar ainda mais riqueza ao incorporarem algumas das descobertas citadas acima? Mais que isso, não podemos pensar no enriquecimento de tecnologias comportamentais ampliadoras de bem-estar baseadas nas descobertas sobre o contato com a natureza, auxiliando terapeuticamente na diminuição do sofrimento mental?

É possível ampliar essas reflexões para outros campos e fazer diversas outras combinações. Que impactos teríamos no bem-estar das pessoas se os formuladores de políticas públicas, os planejadores urbanos e as organizações do mundo do trabalho se voltassem para as descobertas acerca da importância dos espaços naturais e incorporassem, em seus espaços de atividade, o saber científico atual de modo a promover melhoria na vida das pessoas? Para aqueles que pensam em promover um futuro com saúde vale a pena considerar tais achados. 

 

 


¹https://www.apa.org/monitor/2020/04/nurtured-nature acessado em 06 de Julho de 2020



Por: Alysson E. de C. Aquino

Psicólogo clínico pela Unesp/Bauru com experiência no atendimento de adolescentes e adultos desde 2012, além de desenvolver trabalhos com processos grupais e psicologia social. Mestre em Educação pela UFPR e Doutor em Tecnologia e Sociedade pela UTFPR. Docente universitário e pesquisador. Academicamente dedica-se ao estudo e à pesquisa dos seguintes temas: Teoria da Atividade Humana; Psicologia Histórico-Cultural; Trabalho e Saúde Mental; Transformações no Mundo do Trabalho e Impactos na Subjetividade; Adoecimento e Sofrimento Psíquicos de Trabalhadores; Psicologia Social do Trabalho.

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